// (com) a medida da maldade

E eis que hoje eu leio a segunda carta aberta de jornalistas baianos de que me lembro nos últimos quatro anos. Não vou dizer que demorou, demorooooouu, só porque o assunto já vem sendo batido e rebatido há tempos (“E hááá tempos, neeem o santos têm ao certo a medida da maldade…”). Mas demorou. Mesmo assim, foi com satisfação que vi a categoria (minha, tadinha, meu Deus…) se manifestar em uma carta, propriamente dita, quanto às barbaridades que muita gente se delicia assistindo nos programas “policialescos” baianos. É, o pior é tem gente que adora ver isso.

Falo, para quem ainda não se localizou no assunto, do vídeo que vem por aí ganhando as redes sociais, em que a repórter (repórter? acabei de ver alguém levantar a possibilidade de que não seja) Mirella Cunha, da Band-BA, humilha diante das câmeras um rapaz, de prenome Paulo Sérgio, acusado de assalto e estupro. Paulo Sérgio é humilhado em cadeia nacional por não saber o que é um exame de próstata e, para que a repórter (repórter???) não perca a “viagem, acaba sendo julgado e condenado pela moça, que carrega um microfone como se fosse uma espada ou sei lá o quê.

E se o objetivo era alavancar a audiência, como sempre, deu certo: apenas uma das postagens no Youtube já acumula quase 500 mil vizualizações. A matéria (matéria?) exibida pela Band-BA, no programa Brasil Urgente Bahia (quanta Bahia no meio dessa esculhambação…) foi feita nas dependências da 12ª CP (Itapuã). Agora eu me pergunto: não já tinham proibido isso? Já, tinha um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) tratando justamente disso. Mas adianta alguma coisa?

Não, não adianta. Não adianta simplesmente porque a audiência que esses programas têm, a liberdade e o prestígio de que gozam dentro das delegacias, os anunciantes e o resto todo do caldo não permitem que as coisas sejam feitas corretamente. O vídeo em questão vem rodando há mais de uma semana. Mas não é um caso isolado. Nem Mirella Cunha é um caso isolado. Nem é o único bode expiatório desse esquema. Quando não é humilhação em “praça pública”, é assassinato, sangue e coisas do gênero na nossa cara, ao meio-dia. Dia desses tive o desprazer de olhar para a TV no momento em que era exibido, com exclusividade, um assassinato: vítima sendo queimada viva. E a cena sendo repetida em looping para todo o sempre, amém! Cenas como essa e como a protagonizada por Mirella são tão comuns que chega a dar desânimo em comentar…

E aliás, pra falar do trechinho da música que eu coloquei lá no começo: não é que maldade deva ter medida, mas há tempos perderam a linha de verdade. E só agora (em tempo), depois de tanta “comoção”, se é que se pode chamar assim, a Polícia Civil anunciou que vai apurar as responsabilidades do caso. Já diriam por aí no twitter: oremos!

E para que se faça saber qual o posicionamento da nossa categoria quanto a tais absurdos e para que, quem sabe (quem sabe, né?) alguma coisa mude um dia, esperamos sinceramente que em breve, segue a carta aberta divulgada hoje e direcionada ao governador Jaques Wagner, à Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, ao Ministério Público Estadual, à Defensoria Pública do Estado da Bahia e à sociedade baiana. Em sábias e sempre atuais palavras de Gregório de Mattos, pra começar:

“O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.”
(Gregório de Mattos e Guerra)

Ao governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner.
À Secretaria da Segurança Pública do Estado da Bahia.
Ao Ministério Público do Estado da Bahia.
À Defensoria Pública do Estado da Bahia.
À Sociedade Baiana.

A reportagem “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”, produzida pelo programa “Brasil Urgente Bahia” e reprisada nacionalmente na emissora Band, provoca a indignação dos jornalistas abaixo-assinados e motiva questionamentos sobre a conivência do Estado com repórteres antiéticos, que têm livre acesso a delegacias para violentar os direitos individuais dos presos, quando não transmitem (com truculência e sensacionalismo) as ações policiais em bairros populares da região metropolitana de Salvador.

A reportagem de Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Band, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: “É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral”. E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana”. Apesar do clima de barbárie num conjunto apodrecido de programas policialescos, na Bahia e no Brasil, os direitos constitucionais são aplicáveis, inclusive aos suspeitos de crimes tipificados pelo Código Penal.

Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados à sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão, em escandalosa parceria com agentes policiais, que permitem interrogatórios ilegais e autoritários, como o de que foi vítima o acusado de estupro Paulo Sérgio, escarnecido por não saber o que é um exame de próstata, o que deveria envergonhar mais profundamente o Estado e a própria mídia, as peças essenciais para a educação do povo brasileiro.

Deve-se lembrar também que pelo artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “é dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. O direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime.

O jornalista não pode submeter o entrevistado à humilhação pública, sob a justificativa de que o público aprecia esse tipo de espetáculo ou de que o crime supostamente cometido pelo preso o faça merecedor de enxovalhos. O preso tem direito também de querer falar com jornalistas, se esta for sua vontade. Cabe apenas ao jornalista inquirir. Não cabem pré-julgamentos, chacotas e ostentação lamentável de um suposto saber superior, nem acusações feitas aos gritos.

É importante ressaltar que a responsabilidade dos abusos não é apenas dos repórteres, mas também dos produtores do programa, da direção da emissora e de seus anunciantes – e nesta última categoria se encontra o governo do Estado que, desta maneira, se torna patrocinador das arbitrariedades praticadas nestes programas. O governo do Estado precisa se manifestar para pôr fim às arbitrariedades; e punir seus agentes que não respeitam a integridade dos presos.

Pedimos ainda uma ação do Ministério Público da Bahia, que fez diversos Termos de Ajustamento de Conduta para diminuir as arbitrariedades dos programas popularescos, mas, hoje, silencia sobre os constantes abusos cometidos contra presos e moradores das periferias da capital baiana.

Há uma evidente vinculação entre esses programas e o campo político, com muitos dos apresentadores buscando, posteriormente, uma carreira pública, sendo portanto uma ferramenta de exploração popular com claros fins político-eleitorais.

Cabe, por fim, à Defensoria Pública, acompanhar de perto o caso de Paulo Sérgio, previamente julgado por parcela da mídia como “estuprador”, e certificar-se da sua integridade física. A integridade moral já está arranhada.

Salvador, 22 de maio de 2012.

E a band se pronunciou, finalmente, na noite desta terça-feira (22):

A reportagem “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”, produzida pelo programa “Brasil Urgente Bahia” e reprisada nacionalmente na Rede Bandeirantes, a Reporter Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Bandeirantes, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: “É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral”. E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana”.
Deve-se lembrar também que pelo artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “é dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. O direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime.
O jornalista não pode submeter o entrevistado à humilhação pública, sob a justificativa de que o público aprecia esse tipo de espetáculo ou de que o crime supostamente cometido pelo preso o faça merecedor de enxovalhos. O preso tem direito também de querer falar com jornalistas, se esta for sua vontade. Cabe apenas ao jornalista inquirir. Não cabem pré-julgamentos, chacotas e ostentação lamentável de um suposto saber superior, nem acusações feitas aos gritos. 
Rede Bandeirantes vai “tomar todas as medidas disciplinares necessárias. A postura da repórter fere o código de ética do jornalismo da emissora”. 
Pedimos Desculpas aos Nossos telespectadores garatimos que casos como esses não acorrerão mais no Grupo Bandeirantes.

 

// 1944

“A espera, achava Kay, era a parte mais difícil. Nunca se acostumara com isso. Quando o Alarme soou, assim que bateram dez horas, ela, de fato, se sentiu melhor. Espreguiçou-se na cadeira e bocejou, voluptuosamente.

– Gostaria de umas duas fraturas hoje à noite – confessou a Mickey. – Nada sangrento demais. Já tenho o suficiente de sangue e entranhas por um bom tempo. E ninguém pesado demais. Quase rompi as costas na semana passada, com aquele policial em Ecclestone Square. Não, umas duas meninas magras com os tornozelos quebrados já estaria bom.

– Eu gostaria de uma senhora idosa gentil – disse por sua vez Mickey, também bocejando. Estava deitada no chão, em um colchonete, lendo um livro sobre caubóis. – Uma velhinha simpática com um saco de balas.

Tinha acabado de pôr o livro de lado e fechado os olhos, quando Binkie, a chefe do posto, entrou na sala comum, batendo as mãos.

– Acorde, Carmichael! – exclamou para Mickey. – Nada de cochilos no trabalho. Esse foi o Alarme, não ouviu? Eu diria que temos de uma a duas horas antes da farra começar, mas nunca se sabe. Que tal fazer uma inspeção no abastecimento de combustível? Howard e Cole, podem ir junto. No caminho, providenciem água para as garrafas nas vans. Está bem?

Houve várias imprecações e gemidos. Mickey se levantou devagar, esfregando os olhos, balançando a cabeça para os outros. Pegaram seus casacos e saíram para a garagem.

Kay espreguiçou-se de novo. Olhou para o relógio e depois em volta, procurando o que fazer: queria manter a mente ocupada para não pensar na espera. Encontrou um baralho de cartas gordurosas, pegou-as e embaralhou-as. As cartas eram para os recrutas e tinham fotos de garotas bonitas. Ao longo dos anos, o pessoal das ambulâncias tinha desenhado barba e bigodes, óculos e dentes faltando nas garotas.

Ela chamou Hughes, outro motorista.

– Topa jogar?

Ele estava cerzindo uma meia e a olhou com os olhos semicerrados.

– Qual a aposta?

– Um penny por vez.

– Está bem.

Arrastou sua cadeira para perto da dele. Ele estava sentado bem do lado do fogão a querosene e ninguém conseguiria convencê-lo a se afastar dali, pois a sala – que fazia parte do complexo de garagens sob a Dolphin Square, próxima ao Tâmisa – tinha o piso de concreto e as paredes de tijolo caiado, e estava sempre gelada. Hughes vestia um casaco de astracã sobre a farda e tinha levantado a gola. Suas mãos e pulsos, que se projetavam de suas mangas compridas e volumosas, pareciam de cera. Seu rosto era fino como o de um fantasma, seus dentes, manchados dos cigarros. Usava óculos com armação escura de tartaruga.

Kay deu as cartas e o observou organizá-las, delicadamente. Sacudiu a cabeça.

– É como jogar com a Morte – advertiu ela.

Ele sustentou seu olhar, e estendeu uma mão – apontando um dedo, depois o curvou.

– Hoje à noite – sussurou ele com um tom de voz de filmes de terror.

Ela jogou um penny nele.

– Pare com isso. – A moeda quicou no chão.

– Ei, qual é? – disse uma mulher de nome Patridge. Estava ajoelhada no chão, recortando um vestido em um molde de papel.

– Hughes estava me provocando arrepios – justificou-se Kay.

– Hughes causa arrepios em todo mundo.

– Desta vez, ele realmente quis me assustar.

Então, Hughes fez seu número da Morte para Patridge.

– Não tem graça nenhuma, Hughes – reclamou ela. Quando outros dois motoristas passaram pela sala, ele o repetiu para eles. Um dos dois gritou. Hughes levantou-se e foi até o espelho, e o fez para si mesmo. Voltou parecendo desanimado.

– Senti uma baforada do meu próprio túmulo – começou, pegando as cartas.

Nesse momento, Mickey entrou.

– Deu para sentir como está lá fora? – perguntaram.

Ela friccionava as mãos frias.

– Algumas colisões do outro lado de Marylebone, segundo R. e D.; o posto 39 já foi para lá.

Kay olhou para ela.

– Rathbone Place está tranquilo – disse ela baixinho –, você acha?

Mickey tirou o casaco.

– Acho que sim. – Soprou os dedos. – Qual é o jogo?

Houve um relativo silêncio durante algum tempo. Uma nova garota, O’Neil, pegou um manual de Primeiros Socorros e começou a treinar o procedimento. Motoristas e ajudantes entravam e saíam. Uma mulher que de dia era professora de dança vestiu um calção de lã folgado abaixo dos joelhos e começou a fazer exercícios: curvando-se, esticando-se, levantando as pernas.

Às quinze para as onze, ouviram a primeira explosão perto. Logo depois, teve início a bateria antiaérea no Hyde Park. Embora o estrondo das explosões parecesse vir do concreto sob seus sapatos, fazendo a louça e talheres da cozinha chocalharem, o posto ficava a uns três quilômetros das armas.

Mas somente O’Neil, a nova garota, soltou uma exclamação. Todos os outros simplesmente continuaram a fazer o que estavam fazendo antes, sem erguer os olhos – Patridge, talvez, prendesse seus moldes de papel um pouco mais rapidamente, e a professora de dança, depois de um momento, saiu para vestir de novo sua calça. Mickey, que tinha tirado as botas, voltou a calçá-las, preguiçosamente, e começou a amarrá-las. Kay acendeu um cigarro na guimba do anterior. Valia a pena fumar mais cigarros do que queria realmente, ela achava, a essa altura, para compensar o momento frenético por vir, quando ficariam sem fumar por horas a fio.

Houve o estrondo de outra explosão. Pareceu mais próxima do que a primeira. Uma colher de chá que se movera sinistramente sobre a mesa, como se impulsionada por espíritos, agora voou para o chão.

Alguém riu. Outro disse:

– Esta noite, não teremos escapatória, crianças!

– Podem ser aviões para despistar – sugeriu Kay.

Hughes resfolegou.

– Pode ser minha tia Fanny. Lançaram fotografias na noite passada, juro. Vão voltar, se não por outra coisa, por causa das ferrovias…

Ele virou a cabeça. O telefone, na sala de Binkie, tinha começado a tocar. Todos se imobilizaram. Kay sentiu uma pontada rápida, aguda, de ansiedade, no fundo de seu peito. O telefone foi silenciado, quando Binkie o atendeu. Ouviram a sua voz claramente:

– Sim. Entendo. Sim, agora mesmo.”

Sarah Warters, Ronda Noturna (2007). P. 182-185

// cortando os pulsos futebol clube

“Aaai, como é bom pegar uma gripezinha assim no inverno, ficar enrolado embaixo da coberta, assistindo um filiminho velho na TV… Ai que gotoso! … Lindinha!!”

Pois é, propaganda velha à parte, a época do friozinho e da chuvinha fina batendo na janela é também aquela época em que pelo menos 60% (e a estatística é minha mesmo, dá licença!) das pessoas começam a ouvir aquela sequência de músicas feitas especial e carinhosamente para que você corte os pulsos com trilha sonora e muita (ou nem tanta, sei lá) poesia!

Aí, como eu sou uma pessoa boa, resolvi fazer uma seleção. E a seleção, óbvio, é de intérpretes – porque tem gente chegada num sofrimento. A ideia inicial era fazer de músicas mesmo, tipo um ranking: “As 11 mais para cortar os pulsos”. No entanto, tem gente que ia fechar a lista sozinha. Então, vamos lá! Por intérprete e com exemplos, lógico!

1. Adriana Calcanhotto
Sim, ela é a primeira da lista simplesmente porque 99,9% do repertório dela é de cortar os pulsos com faca cega. Até hoje de manhã, o “exemplo” dela era “Vambora”, aquela em que a pobre criatura tem míseros 30 minutos para mudar a vida da outra. Depois pensei em “Mentiras” e no eterno “Que é pra ver se você voooooltaaaaa, que é pra veeeer se você veeeeemm”. Depois pensei em “Pelos Ares”: “Não te peço nada, mas / Se acaso você perguntar / Por você não há o que eu não faça”. Mas nada uma uma morte em quatro versos: “Eu perco as chaves de casa / Eu perco o freio / Estou em milhares de cacos / Eu estou ao meio”. Essa é imbatível!

2. Marisa Monte
Gente, é de uma submissão na vida que só Jeová! Os títulos vão de “Não vá embora”, “Não vê que te amo”, “Não dá pra viver sem você”. A melhor de todos os tempos é “Bem Que se Quis”, mas o auge do sofrimento nem é dela. É de Caetano Veloso. Mas ela sofre bem mais: “A Sua”.

3. Ana Carolina
Ahhhh, essa chega perto de Marisa Monte. Muito! Pensei em “Confesso”: “Não vou pedir a porta aberta, é como olhar pra trás / Não vou mentir, nem tudo o que falei eu sou capaz / Não vou roubar teu tempo, eu já roubei demais”. Depois pensei em “É Mágoa”: “É mágoa / Já vou dizendo de antemão / Se eu encontrar com você, tô com três pedras na mão”. Mas chegar na porta dos outros, de noite, completamente nua, é apelação e sofrimento demais pra uma alma só! Portanto, a escolhida é “Nua”.

4. Cazuza
Bichinho! Todo sensível, todo poético, todo gênio, todo fofo! Mas não menos sofredor… “O nosso amor a gente inventa” é o ícone do amor platônico. “Faz parte do meu show” é música de conquistador. “Minha Flor, meu bebê” é toda bonitinha. Mas pra descer ladeira a baixo, bastou juntar com Bebel Gilberto: “Você me chora dores de outro amor, se abre e acaba comigo”. Passivo sofredor forever!

5. Isabella Taviani
Taviani é tipo Adriana Calcanhotto, mas um pouco mais leve. Tem uns amores mais ou menos bem resolvidos aí, que é o que diferencia. E tem umas músicas animadinhas, que dá aquela diferenciada também. Agora “Último Grão”, realmente, não dá pra ouvir sem um garrafa de vinho e um cigarro do lado. Uma sofrência e um vento que mudou de direção que misericórdia!

6. Djavan
Essa é MESMO a trilha oficial do dia de chuva: “Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro / E o pensamento lá em você…”. E mesmo no meio de “Oceano”, “Eu te Devoro”, “Nem um Dia” e Sina”, eu acho que o sofrimento está tooooodo concentrado em “Lambada de Serpente”, até porque a traição não anda enfeitaçando todo mundo por aí… Ou anda?

7. Adele
Quer dizer, a pessoa se apaixona, sofre feito uma condenada, é abandonada (ou jogada, sei lá) ao vento, e ainda quer repetir a dose? “Não importa, eu vou encontrar alguém como você”. Pra que, mesmo? Pra lembrar a vida toda do outro? Deus é mais! Mas ela é foda! Muito, muito mesmo!

8. Bon Jovi
Só por “Always”, devia ir para o começo da lista. Tem sangue, chuva, choro, dilúvio e até afogamento. Tudo isso em duas estrofes e olhe que ninguém nem chegou no refrão ainda. Pronto, eleita: “And I will looooooooove you, baaaaabyyy, allllwaaaays” (e o telefone tocando no fundo).

9. Amy Winehouse
Nem precisa explicar muito. Sofreu que só pra fazer seus discos e, para fechar com chave de ouro e do alto de toda a sinceridade do mundo, fez “Just Friends”. Claro que “You know I’m no good” e “Back to Black” são dois clássicos! Mas insuperáveis são os seguintes versos de “Just Friends”: “E eu nunca vou te amar como ela / Então, a gente precisa encontrar um tempo / para fazer logo essa merda juntos”.

10. Carole King
Ela começa a tocar piano e já dá vontade de chorar. Aí ela começa a cantar “So Far Away” e você entende logo a balada do “e se…”. É, porque tudo poderia ter sido diferente, tudo poderia ter sido assim, assado… “E se eu pudesse viver essa vida à minha moda / Eu preferiria vivê-la estando ao seu lado”. Owwwntiii *-*

11. Mart’nália
Ô, ela nem merecia entrar na lista, na verdade. Porque é toda animadinha, aquele samba perfeito, limpo. Mas aí ela lançou o álbum “Não tente compreender”. E aí ela gravou uma música chamada “Depois Cura”. E aí ela entrou no hall da trilha sonora de cortar os pulsos. “Vai sofrer, mas depois cura”.

Proonto, fechou o time! Onze trilhas sonoras para ouvir debaixo da coberta e com lencinhos de papel à vontade =P

// bum, bum, bum, Castelo Rá-Tim-Bum!

O post tem, assim, uns três dias de atraso, na verdade… Mas a minha constatação de que tô velha ainda não foi embora. Sendo assim, vale falar do assunto, até porque botar pra fora é bom, né? Diz o povo por aí que “quem guarda é baú”. Então: o Castelo Rá-Tim-Bum completou 18 anos essa semana. 18 aninhos, maioridade. E eu, cá do alto dos meus 22, devo ter visto aqueles episódios quantas mil vezes?

Lembro da primeira pessoa que me falou do Castelo. Tá, talvez não tenha sido a primeira, mas com certeza é a pessoa que eu mais me lembro de assistir junto: minha amiga Acácia, ex-colega e amiga do coração, desde os tempos do jardim de infância. A gente sentava na frente da TV, a uns 50 cm de distância, no máximo, e ficávamos ali, vidradas. Nino, Zequinha, Pedro, Biba, Dr. Vitor e Tia Morgana. E, claro, os clássicos: Celeste, Etevaldo, o Dr. Abobrinha, Tíbio e Perônio, o Ratinho, o Mau – o pobre do Godofredo e a gargalhada fatal do Mau!.

E o porteiro, lógico, com a tal da senha. Nunca gostei muito de Penélope, acho que aquele cabelo rosa não era das coisas que mais me agradavam. A caipora também era meio sem graça. Mas quando entrava pela porta (com direito àquela musiquinha de fundo) o Dr. Pompeu Pompilho Pomposo – e isso sempre me lembra da voz do Zequinho e do Nino de fundo: Dr. Abobrinha!! – aí a animação começava de verdade!

A minha casa e o castelo
Sim, lógico. Se eu quis, anos depois, a minha carta de Hogwarts, por que não haveria de querer tudo que tinha naquela castelo? Me tornei a pessoa mais feliz do mundo quando descobri como se faziam jarras de vidro. E, claro, queria fazer lá em casa, fazer ressurgir das cinzas um fogão de lenha de lá de casa! hehehe

A máquina de lavar louça, a mesa giratória, aqueles copos super legais também eram algumas das minhas cobiças. A biblioteca e o ratinho robô! Mas nada – NADA!! – que se comparasse ao quarto do Nino. Quem nunca quis ter um qurto com aquele porta que girava, que atire a primeira pedra!

Comemoração
Para fechar as homenagens aos 18 anos do Castelo, a TV Cultura lançou um site com vídeos, making-off, novas fotos e até um bate-papo com o diretor do programa, Cao Hamburger. Vale muito à pena conferir!

Vamos aos vídeos:

P.S. No Youtube dá pra ver vários episódios completos. Vão lá!

// tema de hoje: não vai descer no ponto…

Olá, bom dia! Meu nome é Otária da Silva Sauro e eu recebi esse nome singelo porque a moça de quem sou o alterego vive P da vida com essa vida de andar de ônibus em Salvador. Há um tempo venho tentando convencê-la a não falar sobre o assunto que se segue, porque pode ter algum conhecido que faça isso, mas não tá adiantando muito… Pois bem. TEMA DE HOJE:

 

Já diria Falcão: “O problema do corno não é o chifre, é a má administração dele”. Se a pessoa sabe que tá num buzu entupido que vem lááááá de T.Neves com destino à Barra, porque diabos não se posiciona no meio do buzu? Sim, porque por mais entupido que o buzu esteja, existem os lugares estratégicos. Se você vai descer no Shopping Barra, não tem porque andar pra frente do buzu no Campo Grande. Mas, não. A pessoa anda. É um apego com o motorista que, sinceramente…

Aí aquele buzu que parece mais uma lata de sardinha, que vem sacudindo lááá de T. Neves, passou pela Silveira Martins, desceu a Ladeira do Cabula, foi na Bonocô, voltou (sabe Deus como!!) pra Sete Portas, Aquidabã, Baixa dos Sapateiros, Campo da Pólvora, Joana Angélica, Gravatá, Dique, Lapa, Barris e (ufa!) chega Campo Grande, tem que ficar lá parado por séculos, simplesmente porque a piriguete gosta de bater papo com o motorista que ela acha bonitinho.

Aí tem uma tropa de gente pra descer no ponto e ela tá lá, embassando a porta do buzu. Aí o motorista acha que não tem mais ninguém pra descer e arrasta. E aí fica o povo:

- Êêêêê, peraí motô!!

Ou então você vai vendo que a pessoa não faz a menor menção de que vai descer no ponto e você pergunta:

- Vai descer no próximo?

E ela responde, bem com cara de quem se tocou agora que tá no lugar errado:

- Não…

Aí dá vontade de você olhar pra cara da miséra e dizer:

- E tá fazendo o que porra em pé na porta????

E aí depois o poovo reclama que baiano é mal educado. E depois reclama que o buzu fica um tempão no ponto. Como é que não fica?

// … vevé calazans

É d’Oxum é uma das músicas mais maravilhosas que já tive o prazer de ouvir. E digo maravilhosa porque não havia pensado no sentido genial dela como retrato da Bahia até pouco tempo atrás. A explicação da genialidade da letra veio de forma tão natural que me perguntei depois como nunca havia imaginado É d’Oxum assim.

Faz pouco mais de dois meses que me sentei em uma das mesas da Cantina da Lua para bater um papo com três nomes da música baiana: Gerônimo, Laurinha Arantes e Lui Muritiba. Enquanto esperava os dois últimos chegarem, tive uma verdadeira aula de história com Gerônimo.

E estou falando de Gerônimo porque ele é co-autor de É d’Oxum. A obra prima é dele e de outro gênio da música baiana: Vevé Calazans, que morreu na manhã deste sábado (28) em Salvador.

- Um homem como Vevé Calazans, que fez tantas composições geniais, hoje não escreve mais. E não o faz há muito tempo porque não encontra condições para isso. Compor hoje, fazer uma música, demanda muito dinheiro – disse Gerônimo.

Não disse uma palavra, continuei prestando atenção.

- É d’Oxum, por exemplo, música minha e de Vevé, fala muito disso, de vaidade. Quando a gente fez essa música dizendo que ‘nessa cidade, todo mundo é d’Oxum’, a gente quer dizer que todo mundo anda com um espelho na mão, todo mundo só olha para si mesmo.

Quanta verdade em uma frase. Ver a notícia da morte de Vevé Calazans hoje pelo facebook de um amigo, procurar quais meios de comunicação haviam noticiado o fato e não encontrar uma linha sequer faz pensar nisso…

Vevé tinha 64 anos e morreu de câncer no Hospital Jorge Valente, em Salvador, onde estava internado desde 16 de abril. O sepultamento acontece amanhã (29/4), às 9h, no Cemitério do Campo Santo.

Memórias do Mar:

É D’Oxum:

// eu vi uma barata

Quer dizer… Queria saber porque diabos aparecem tantas baratas nos ônibus de Salvador. Otária da Silva Sauro – e justamente por carregar essa alcunha – não quer matar a barata. Ou, como diz Andrezão Simões, simplesmente porque mulher tem uma tendência a ser “eco-ibamamente correta” e logo grita: “Não mata, nãooo” – mas corre léguas de tudo quanto é bicho.

Quer dizer (sim, vou começar o parágrafo assim de novo), fica difícil conviver. A pessoa já passa pela provação de ter que andar de buzu nesse engarrafamento duzinfernos de todos os dias em Salvador. Aí a pessoa tem que conviver com os DJs de buzu. E a pessoa tem que conviver com os pagodeiros que acham que são donos do buzu. E a pessoa tem que conviver com o cobrador que acha que só porque tá lá confortável no lugar dele, significa que o buzu tá vazio. E tem que conviver com as pessoas que resolvem traseirar no buzu e entram no humilhante pela janela de trás, assim, enfiando o pé na sua cara, literalmente. E como se fosse pouco, agora a pessoa tem que conviver com as baratas – e os filhotes de barata, que passeiam alegremente pelo buzu.

Quer dizer (não me julguem!), tenha dó! E as pessoas ainda têm a cara de pau de estampar aquele certificado de sanitização naquele plástico de 10 anos do lado do motorista? Que espécie de sanitização é essa que permite, inclusive, que as baratas procriem lá dentro – sim, porque se tem filhote passeando, é porque mamãe e papai também estão por lá. É claro que o povo não colabora, porque o que tem de papel de amendoim dourado, banacaxi, pé de moça, bala e chiclete nas janelas, não está no gibi! Agora custava tanto assim as empresas darem uma limpa no buzu, jogar nem que seja um Mafú Barata lá de vez em quando?

Quer dizer (é o último parágrafo, juro…), a criatura tem que ficar naquela guerra fria com a baratinha, tentando demonstrar pra ela que ali não é lugar de passear, que o cinto de segurança do cadeirante não é balanço, que o seu sapato não é morro pra ser escalado… E, de quebra, ainda ficar o dia todo achando que tudo de pinica na roupa é a bendita baratinha que acabou perdendo de vista com o balanço do buzu nas curvas da obra da Via Expressa. Quer dizer…